Buraco do Sapo

última foto antes do céu já não poder me olhar. não que a gente nunca mais tenha se visto, é que assim era no íntimo. as aberturas, ele invadindo.

agora é tipo corte, com a espreita do vô. na esquina da casa onde o sol engole meus relevos. 

e eu tinha prazer de ser encarada sem aviso. de levantar os ombros e dizer que não convidei. exibir avesso em desdém. e mesmo assim ser gostada como maracujá. quando o sentido maior da boca é o caroço dançando azedinho entre a língua e o dente. 

A vida já não nos admite

Quando você era criança eu já tinha 30 anos, quando você era adolescente eu já tinha 60 anos. Agora que você tem 30 anos eu morri. Mas a data de início registrada é a mesma.

O Menino de Altamira, conta Eliane Brum, tinha rugas debaixo dos olhos. É pessoa que morre, que vai e nunca mais, que falta a carne pelo tamanho do vício, tiro que interrompe caminho, tapa que empedra a voz, buraco estourando a loucura, corda subindo as veias do braço.

Falar o que todo mundo fala, fácil. Simone cantou mississippi goddam e foi abandonada. É sobre isso. E mais. É sobre as 10 mil horas que ainda não lemos. Não são frases soltas, corpo oferecido ou lamento. É dar o que se vende, tempo.

Conversando com Maria – 07.07.2020

Quem me vê sorrindo pensa que estou alegre. E é isso mesmo, porque quando pranto eu pranto. E se engulo, dia seguinte a carta fecha. Número três. Pra vocês tudo coincidência. Pra mim um gesto. De quem anda se frequentando diariamente. Amando, chorando, sofrendo. Recebendo a vida assim, que se dá a mim e aos tipos meus. Que laceramos sem querer perdão. Nem perdoar. Vocês com seu deus, comigo eu. Deitando e acordando. O outro tendo, quando quer, o lado. Pro medo que o carregue. Estou certa, morando em dúvidas. Misturando agora mesmo todas as músicas. Conversando só, pra terminar no meu começo em frase de outra Maria: “a loucura é o sol que não deixa o juízo apodrecer”.

Estou o intervalo – 01.07.2020


quando beijo teus olhos não é pra imitar cinema
é que cê não guenta
o contorno afiado dos meus caimentos
opaca, encaro
não me distraio
é torta a boca quando tá movendo
e derrotado o pulso na manhã seguinte
pele amassada, lábios inchados, cabelos fora do laço
o bafo
e você não sente
o que antecede
que gosta e não sabe
tocar minha ferida sarada
sem marca
por isso eu conto, repito
é com todo mundo
cê não tá me ouvindo
eu não me comovo com esse brilho
e o teu tipo de pergunta
resulta a falta de convite
tá preso no desempenho
pra casa só trago quem redemoinho
enquanto cuido
em gestos pequenos
respirando tempo
e como a gente não tem medida, eu peco
sendo o excesso
de mim mesma, no meu dedo
na tua cama, só minhas pintas

Declarações feitas em datas polêmicas – 12.06.2020


03.05.2020 – 01h34

Helena, como faz se agora teu nome não sai do meu tom? Sabe esse que todo mundo tem dentro quando quer conversar as coisas mais sérias e também as mais bobas consigo mesmo? Você que é virginiana dois dias depois de mim se incomodaria fácil com a assimetria dos meus seios, mas vê milagre até nas minhas pernas bambas. Não sei o que incha mais, você me enxergar depois dos olhos ou achar bonitos mapas nos meus vazios. Ontem te disse que tem o que a gente pensa e aquilo que é nosso. Que a gente pode mudar muito de ideia e postura, mas só o aquilo que é nosso, a coisa sem nome, que faz a gente ir pra onde tem que ir. Você tem o aquilo grande.
A gente vive num mundo anfetaminado, pensa na cena, a mente correndo, emoção na carne, tutistutistutis. Daí a gente vê Helena. E para. E pensa. Essa mulher existe. E aí vem o movimento. Lento. De quem enxerga o aquilo de alguém, um aquilo que a gente leva anos pra encontrar nas pessoas. O seu pisca mesmo as luzes estando apagadas. E espeta. Bem na via pública do que a gente é.

Era só pra transmutar – 13.05.2020

Existe você. E diferenças entre as pessoas que olham você e se enxergam e as que olham você e te enxergam. Saber essas diferenças é importante pra continuar na tentativa de viver entregue, mas não ajoelhada.
As pessoas que te olham e se enxergam não sabem o que teus silêncios significam, nem reparam na quantidade de palavras das tuas frases quando não respiram, nos teus acentos jogados.
Teu jeito de amar.
Elas não prestam muita atenção se você gosta de algo mesmo ou se você aceitou só pra não incomodar. Sabem da tua irritação apenas quando desculpa pra te odiarem. E sempre viram o rosto antes de ver como é que teus olhos brilham quando está muito contente ou como tuas mãos morrem quando desiste. Sempre tão distraídas. As pessoas que se enxergam em você querem te ajudar porque isso as torna melhores. Mais próximo do que elas gostam de ver no espelho.
As pessoas que te enxergam, por outro lado, querem quebrar essa imagem com você. Esquecem datas, mas nunca encontros. Leem sabendo o que é e o que não é você, mesmo não vendo tua letra. Não tem espaço pra confusão. Em tempos de desespero elas são as que respondem “eu sei que isso não é comigo”. São as que se preocupam com o tempo de queda do teu corpo. As que admitem não saber o que fazer com os problemas que são teus.
Mas que te fazem companhia no grito pra Deus.

Segundo domingo de maio – 10.05.2020


ramalho demais pra catar piolho sozinha. mesmo assim eis tú. perdendo peso pra não virar um. sorrisinho de banda. ossos finos. foi aí será que aprendi a ser triste em vez de má? era só pra vir e dizer feliz dia. mas que medo deu. mandaram logo essa foto tirada sem a gente ver. era pra prender alma, mas previu futuro. passado que ainda tá pra tornar a acontecer. eu já preocupada, aprendendo cálculos. ela nas sobras, sempre cuidando. e ele agarrado, vendo chance embaixo. terços contados enrolando no pescoço. longo caminho até rezar minha santa trindade. terra, fogo, água. o ar veio em corrente e partiu. era pra ser mais um oposto complementar. virou ironia das constelações. eu rapadura vocês. em nome da mãe, de mim e do mano. amem. sem acento.

Escondida dentro – 02.04.2020

antes de dormir pedi: que eu saiba encarar meus buracos curiosamente como quem coloca a mão na tomada. que eu receba a descarga. toque sem horror as cicatrizes da alma.
sono. sonho. minhas imagens antigas, cachos longos, cabeça baixa e meio sorriso. alguém fala no corredor, pergunto por um tio, respondem da janela alta que não. a porta da vizinha aberta, vozes desconhecidas. o escuro me comendo. meu corpo puxado. porta se casa em sombras. eu na cama. tapam boca, sem socorro. prendem braços, sem luta. creio em deus pai. esqueci, esqueci, esqueci. pai nosso, pai nosso, pai nosso. não quero ver ainda. não quero ver ainda. sai o som pela boca. os olhos abrem. e eu ainda morrendo de medo de mim.

Quarentena – 18.03.2020

Parei de ficar aqui na semana pra ter mais afeto nos dias comuns. Fugindo do vício, vem ironia. A cabeça batendo, peito em pontadas. Uma coisa. Duas coisas. Três coisas. Quatro porque não tem nisso nada sagrado. O fim não é este, mas procura-se um amigo pra estar sozinho junto. Tomar o chá de Leminski. Agora sem deixar por isso mesmo. Aguardar os ponteiros pra correr literalmente pro abraço.
Fim do ano passado escrevi uma carta pra Ana e perguntava: como será que você está? Assim por dentro, sabe? Quando a luz do dia vai embora, está frio, ninguém além de você. Como é que você se sente? Sinto falta, Ana, de saber essas coisas longas das pessoas.
E agora, Maria?
Ano passado morri e esse ano ainda não. Guardem meus beijos, abraços e cheiros em embrulhos bonitos. Quando a gente souber dizer disso tudo sem o fogo na beirada da barriga, vou onde for pra buscar.
Por enquanto pontas e planta no chão. De casa.