Roda Viva

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Tou escrevendo de ansiosa que sou, porque a verdade é que não deu tempo e não tenho a menor ideia de como começar a costurar o maravilhoso vestido rodado que foi desfazer mais um ciclo. Talvez eu goste mesmo de escrever, não como terapia ou necessidade. É dessas coisas feito fé. Confesso que já usei a escrita pra fugir de olhares difíceis. Mas também já peguei o sabonete em muito texto que deixei cair.

Acho que sei chorar bastante bem, de um jeito que não incomoda as pessoas. Sorrir não é como andar de bicicleta, porque as quedas podem paralisar por muito tempo a coragem. Acontece que nesses últimos dias eu não tirei as casquinhas, daí a coceirinha que dava era até gostosa. Mas foi tanto passeio de dentes que dei, tanto, tanto, que eu até consegui dormir mais de três horas ininterruptas.

Quando eu estava lá rodeada das pessoas que amo e que me querem bem, fiquei pensando como as decisões de partida devem ser feitas com a mesma delicadeza que temos ao pegar um nenê no colo. Tem que respirar bem o cheirinho, admirar o choro do desconhecido, aquecer com a banguelinha da confiança.

Mundo vasto mundo, eu me chamo Maria. Minhas amigas me rimam com pia, e eu tou bem longe de qualquer solução. Mas se os dias se passam com mais fracassos é pra eu continuar frequentando corações que só eles podem me apresentar.

Tenho 27 anos, não quero casar, ter filhos, casa própria e carro do ano. Alguns podem pensar que é pouca ambição. Porque né, tem coisa mais ingênua que querer mudar o mundo?! Mas eu tou aqui achando o máximo ter reaprendido que a dor é poliamorosa e efeito dominó. E que prefiro as marcas de calor nos pés do que os buracos no colchão.

Que o universo me mantenha forte, porque firme é o mesmo que acreditar em papai noel.

 

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Loba

mac blog

Sonhei mais uma vez com minha ex-chefe. Teve tempo que ela dominou minhas madrugadas. Atenta pra perceber quando esses sonhos vêm, sabia só que aquela visita de ano novo eles nunca deixam de fazer. Fui me intrigando com a coincidência de eles surgirem sempre em momentos difíceis. Quando sou apreensão ou cansaço de Álvaro de Campos. Mas dessa vez eu consegui dançar as batidas da veia.

No sonho, eu tinha ido visitar uma amiga (lá mesmo, no ex-trabalho dessa tal ex-chefe). Pra não atrapalhar essa minha amiga, acabei ajudando na organização do lugar. E eis que aparece a ex, sempre com aquela cara de deboche, mostrando ao mundo sua superioridade, insinuando que minhas mãos são e sempre serão de subordinada – hoje eu penso que esse era o jeito que ela tinha pra esconder a mediocridade (a minha, por exemplo, já deixo logo escancarada). Respirei fundo e me cantei paciência. De repente a mãe dela surge trovejando em mim os piores adjetivos. Sabe aqueles momentos em que a nossa voz é roubada no sonho? Foram assim em todos. Menos nesse. Não sei o que me empurrou, as palavras vieram cambaleantes. Eu gaguejava que ela não podia me tratar daquela maneira, pedia respeito e várias outras coisas enquanto ela soltava o famoso “você sabe quem sou eu?”. Mas meu tom torto continuou lá, dizendo que a vida não olha bolso ou sobrenome.

Vivi muito tempo vendo miragens de marias e andando seca. Mas no último ano, pela primeira vez, eu pude trabalhar com paixão, trocar experiências, compartilhar aprendizados.

Ontem, pela manhã, atendi um grupo de professores e me senti grande. Porque inteira. Compartilhei um jeito de brincar depois de não ter mais dentes de leite. Mas à tarde, ao atender um grupo do ensino médio, me faltei. Exigi pra ser. Foi muito esforço. No fim da visita, sentada com a galera, eu pedi desculpas. Expliquei que o corpo e a mente estavam numa lentidão que me paralisava as ideias. Mesmo com a vontade de pé, a fala não acompanhava o raciocínio, que por sua vez não acompanhava a mínima coerência. Reconheci diante de vários adolescentes que eu não sou o tempo todo um estado só. Eu estava ali um pouco sangrando.

Na saída encontrei Levi, um ser brilhante que o universo fez aquele enorme favor de apresentar. O Levi disse, entre muitas coisas que estão guardadas nos cantos aqui da alma, que devemos parar de nos esconder atrás das fantasias negativas que fazemos de nós mesmos. É aquele “seja você” com estilo, um “reconheça sua humanidade”.

Eu fui pra casa, cansada, com pingo gelado na cabeça, o coração meio bamba. No apagado dos olhos tive o sonho. Hoje. Ai. Cheguei às pressas, era muita gente pra pouca eu. Mas dividi meu pãozinho com todo mundo. Um grupo de pessoas adultas, com a enorme responsabilidade de contribuir com a educação de tanta gente, me agradeceu por eu simplesmente ser eu. Imaginem vocês que loucura divertida. Conheci a história da Helena e do Adolfo, que já fazem parte da minha literatura real favorita. Ouvi: “existe muita luz em você”. Não sei bem o que isso significa, mas costumo ter medo do escuro.

Meus botões floresceram temporariamente e, como disse Tania-Ahita, “minha única pretensão é mudar o mundo”. A maneira como eu vou fazer isso vai sempre juntar minha entrega total, mesmo quando meus olhos água e o corpo poeira, com a improvisação.

Só pra acabar de não fazer sentido algum: querida ex, esse texto não é para ou sobre você, mas se algum dia tiver acesso a ele saiba que eu espero que você esteja bem. Mas deixa marcador nessa página, pra não esquecer de se manter o mais distante possível dessa tua versão. Aceite, durante muitos anos, você foi uma péssima pessoa (estou otimista de que tenha melhorado um pouco).

 

 

Canções de sempre

Escute o áudio do textinho abaixo:

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Enquanto um faz roxo com as palavras, o outro esburaca com silêncio. Eu continuo suspensa no enorme vazio de mim mesma. É como estar naqueles sonhos em que o grito se enforcou. Não sou mais a coceira dos olhos de ninguém. Tenho sempre a sensação de ser respostas inadequadas de perguntas não feitas. Atrasei tanto pra sonhar que virei pesadelo. Em outra vida me façam Samantha.

Poças que prendem id

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Na terapia, toda vez que o Eu surgia a sala se aquietava. Fazendo questão do tema, o silêncio só se levantava pra deixar sentar as lágrimas. Na vida, quando a gente quebra algumas lascas se perdem de vez. Daí vamos preenchendo espaços com vazios alheios. Chega um momento em que não se sabe mais o que sempre esteve ali. Quando uma ou outra peça caem numa derrapada a gente se perde na montagem. No comum do que dizem senso todo puzzle é metáfora pra vida e todo eu não sabe respirar sem companhia de uma legião. Dizem que somos a geração que só nada com cápsulas de serotonina. E esse Eu dá a eles razão.

Só me interessa mudar as coisas

Escute a sofrência no player abaixo:

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Finalmente morreu o nós.  Anote a data extensa de trinta de abril de dois mil e dezessete. Você. Eu. Nossos desejos, nossas canções. Esperei muito a ida dele, era a última coisa da minha lista de como esquecer o que fomos. Pronto. Não vou mais lembrar nosso beijo sem graça, dado às pressas pra dizer tou a fim e ao mesmo tempo não perder o último ônibus. Não. Acabou.  Vou esquecer o meu bem cantado ao pé do ouvido no segundo beijo. Demorado, desobedecendo todas as revistas capricho. Ficamos ali, respirando um pelo outro, exatamente uma hora.  Chega. É um alívio não ter mais que reviver esses dias todos de você. Não morri, não sou mais jovem, você não me traiu. O fim veio só, mas não veio simples. Ainda vi cada passo, sofri cada sumiço. Mas hoje chegou. Morre ele, morre nós. Nunca mais meu peito toca essa versão. Nesse vinil quebrado jaz o primeiro toque das nossas mãos.

Minha pequena taurina

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Teus olhos grandes engolem tantos universos que é natural derramar sal grosso. Não sinto que estou aqui pra ser barragem, nossas águas querem mais espaço. Queria poder te dar mais, eternizar não teu nome, que é quase tão comum quanto o meu, mas o pássaro que carrega no coração e canta que Luiza são várias e que 41 às vezes é um número bom. Eu podia ser mais direta, mas só sei mesmo falar em segredos. E nós duas somos chaves.