Elvi

não foi ninguém quem falou. eu tava lá quando abri o peito propositalmente e deixei estourar a lama na cara dele. ele passou a mão como se não fosse nada e disse “eu sei que isso não é comigo”. não era mesmo. e eu chorei porque ninguém nunca soube. eu esperando um cuspe ou qualquer líquido que me cortasse, e ele veio foi abraçando a minha dor. você pode achar que isso tem a ver com o olhar ou a convivência. mas mesmo um oceano dividindo eu me mostro bagunça e ele continua sabendo. se eu digo que ele é muito, ele não pede explicação. retribui porque me sabe. imagina nunca precisar contar de uma vírgula. eu venho barragem ele me força da natureza. eu resto de nada ele me arte no reciclo. eu rua sem saída ele me volta no quarteirão. eu escada deserta ele me casa de crianças. eu página branca ele me colore livro. e vocês chamando amante o que nós chamamos amigo.

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Segredos

Não sei. Talvez devesse esperar o estômago dar uma enxugada, os olhos esfriarem, a alma enrijecer. Quem sabe até as palavras ficarem do jeito que todo mundo entende. Só que aí acabo me perguntando quanto de beterraba preciso mastigar pra que aceitem que continuo igual com ou sem essas vitaminas. Tem coisas que a gente diz que é tentando convencer a si mesma, porque lá dentro tá que é só água na peneira. Todo dia levanta em mim uma desconhecida. É inevitável fazer relação, ter que se esforçar pra isso e daí cansar. Cansar muito. Por isso às vezes me escondo-escondo. Mas reconheço que é um problema quando não tem ninguém pra me achar.

Dos momentos sérios do dizer nada

blog palacios

não tenho curvatura pra pose, nem sou pássaro que pouse. forço rima e tudo, menos um abraço. sou tão dada quanto desgarro fácil. deixei de querer me ver em dois, já que é pra ter números que seja no mínimo trindade. não durmo logo e não importa o colo. eu quero as cores do cabelo Clementina, a atenção dos olhos fechados de German, o balé de Frances na rua, a astúcia de João Grilo na seca. eu quero viver querendo toda gente. mangar de mim mesma quando tombo goles de qualquer coisinha, porque sou fraca. não precisa me dizer, eu sei. eu tou mesmo é fugindo. foi um sotaque cearense quem me ensinou que voltar é longe. eu sou também isso aqui, uma legenda grande que ninguém nem lê, mas poesia é igual farofa. não sei viver sem. na verdade eu sei, mas não quero. e eu já disse que quero é querer vivendo e querendo viver.

Cria da dor

Meus respiros todos foram pra voar ao lado dos grandes com asas alugadas. Gastei assim pra não ter que olhar esses eus que sobram. Hoje recebi o último aviso de atraso. Fui jogada mais uma vez pra essa vala de mim mesma. Cheira mal. Mesmo assim não quero perdão. As mãos já não são sagradas e o abraço virou só um buraco. Minha covardia continua ouvindo o que dizem os espinhos alheios. Só não sangro mais porque ainda broto me picaram inteira. Resisto apenas na minha falta de vergonha. E eu podia ter escolhido o show da Bethânia. Mas não posso abandonar quem me deu de comer.

Onanista

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o áudio é outra maneira de me ler, escuta também:

thumbnail_Player Vooozer

não sou essa folha seca que cai da árvore, sou bem menos. me falta graça, leveza, saber o momento certo da surpresa. mas amiga, se soubesse como pisam melhor meus pés sobre meu corpo. cada dia uma nova versão da mesma história de que a única coisa que me pertence sou eu. talvez isso não seja lá maneira de ser feliz. só que eu nunca quis ser feliz. e tenho gostado de ser essa boneca de pano que em cada rasgo ganha remendos de calor. um sorriso, um aperto, um beijo, um chamego. a falta de ar, de sentimento, de desejo. o vazio, o silêncio. fios de cabelo suspensos. as direções erradas viraram sinais. ando em círculos e já não me importo mais. porque embora os lugares sejam os mesmos, os sotaques nunca são. não tenho mais medo, danço xote sem vergonha em terreiro alheio. ando pixando fogo. e eu sei, você é nova. não faz mal ouvir sua mãe. mas quando se der conta de que não existe estar pronta, pega o pedaço de cera que ainda te sobra e vem queimar até não ter mais volta.

Roda Viva

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Tou escrevendo de ansiosa que sou, porque a verdade é que não deu tempo e não tenho a menor ideia de como começar a costurar o maravilhoso vestido rodado que foi desfazer mais um ciclo. Talvez eu goste mesmo de escrever, não como terapia ou necessidade. É dessas coisas feito fé. Confesso que já usei a escrita pra fugir de olhares difíceis. Mas também já peguei o sabonete em muito texto que deixei cair.

Acho que sei chorar bastante bem, de um jeito que não incomoda as pessoas. Sorrir não é como andar de bicicleta, porque as quedas podem paralisar por muito tempo a coragem. Acontece que nesses últimos dias eu não tirei as casquinhas, daí a coceirinha que dava era até gostosa. Mas foi tanto passeio de dentes que dei, tanto, tanto, que eu até consegui dormir mais de três horas ininterruptas.

Quando eu estava lá rodeada das pessoas que amo e que me querem bem, fiquei pensando como as decisões de partida devem ser feitas com a mesma delicadeza que temos ao pegar um nenê no colo. Tem que respirar bem o cheirinho, admirar o choro do desconhecido, aquecer com a banguelinha da confiança.

Mundo vasto mundo, eu me chamo Maria. Minhas amigas me rimam com pia, e eu tou bem longe de qualquer solução. Mas se os dias se passam com mais fracassos é pra eu continuar frequentando corações que só eles podem me apresentar.

Tenho 27 anos, não quero casar, ter filhos, casa própria e carro do ano. Alguns podem pensar que é pouca ambição. Porque né, tem coisa mais ingênua que querer mudar o mundo?! Mas eu tou aqui achando o máximo ter reaprendido que a dor é poliamorosa e efeito dominó. E que prefiro as marcas de calor nos pés do que os buracos no colchão.

Que o universo me mantenha forte, porque firme é o mesmo que acreditar em papai noel.

 

Loba

mac blog

Sonhei mais uma vez com minha ex-chefe. Teve tempo que ela dominou minhas madrugadas. Atenta pra perceber quando esses sonhos vêm, sabia só que aquela visita de ano novo eles nunca deixam de fazer. Fui me intrigando com a coincidência de eles surgirem sempre em momentos difíceis. Quando sou apreensão ou cansaço de Álvaro de Campos. Mas dessa vez eu consegui dançar as batidas da veia.

No sonho, eu tinha ido visitar uma amiga (lá mesmo, no ex-trabalho dessa tal ex-chefe). Pra não atrapalhar essa minha amiga, acabei ajudando na organização do lugar. E eis que aparece a ex, sempre com aquela cara de deboche, mostrando ao mundo sua superioridade, insinuando que minhas mãos são e sempre serão de subordinada – hoje eu penso que esse era o jeito que ela tinha pra esconder a mediocridade (a minha, por exemplo, já deixo logo escancarada). Respirei fundo e me cantei paciência. De repente a mãe dela surge trovejando em mim os piores adjetivos. Sabe aqueles momentos em que a nossa voz é roubada no sonho? Foram assim em todos. Menos nesse. Não sei o que me empurrou, as palavras vieram cambaleantes. Eu gaguejava que ela não podia me tratar daquela maneira, pedia respeito e várias outras coisas enquanto ela soltava o famoso “você sabe quem sou eu?”. Mas meu tom torto continuou lá, dizendo que a vida não olha bolso ou sobrenome.

Vivi muito tempo vendo miragens de marias e andando seca. Mas no último ano, pela primeira vez, eu pude trabalhar com paixão, trocar experiências, compartilhar aprendizados.

Ontem, pela manhã, atendi um grupo de professores e me senti grande. Porque inteira. Compartilhei um jeito de brincar depois de não ter mais dentes de leite. Mas à tarde, ao atender um grupo do ensino médio, me faltei. Exigi pra ser. Foi muito esforço. No fim da visita, sentada com a galera, eu pedi desculpas. Expliquei que o corpo e a mente estavam numa lentidão que me paralisava as ideias. Mesmo com a vontade de pé, a fala não acompanhava o raciocínio, que por sua vez não acompanhava a mínima coerência. Reconheci diante de vários adolescentes que eu não sou o tempo todo um estado só. Eu estava ali um pouco sangrando.

Na saída encontrei Levi, um ser brilhante que o universo fez aquele enorme favor de apresentar. O Levi disse, entre muitas coisas que estão guardadas nos cantos aqui da alma, que devemos parar de nos esconder atrás das fantasias negativas que fazemos de nós mesmos. É aquele “seja você” com estilo, um “reconheça sua humanidade”.

Eu fui pra casa, cansada, com pingo gelado na cabeça, o coração meio bamba. No apagado dos olhos tive o sonho. Hoje. Ai. Cheguei às pressas, era muita gente pra pouca eu. Mas dividi meu pãozinho com todo mundo. Um grupo de pessoas adultas, com a enorme responsabilidade de contribuir com a educação de tanta gente, me agradeceu por eu simplesmente ser eu. Imaginem vocês que loucura divertida. Conheci a história da Helena e do Adolfo, que já fazem parte da minha literatura real favorita. Ouvi: “existe muita luz em você”. Não sei bem o que isso significa, mas costumo ter medo do escuro.

Meus botões floresceram temporariamente e, como disse Tania-Ahita, “minha única pretensão é mudar o mundo”. A maneira como eu vou fazer isso vai sempre juntar minha entrega total, mesmo quando meus olhos água e o corpo poeira, com a improvisação.

Só pra acabar de não fazer sentido algum: querida ex, esse texto não é para ou sobre você, mas se algum dia tiver acesso a ele saiba que eu espero que você esteja bem. Mas deixa marcador nessa página, pra não esquecer de se manter o mais distante possível dessa tua versão. Aceite, durante muitos anos, você foi uma péssima pessoa (estou otimista de que tenha melhorado um pouco).