O fim de Maria é aos poucos, como todas as outras

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Talvez, como quase sempre faço, esteja atropelando meu momento de sentir ao tentar ordenar em palavras o cenário que inventei assim que meus olhos cresceram nas palavras de Safatle: “[…]Quem toca o impossível paga um preço. Há o chão à nossa espera, o acidente, a quebra certa e segura como a dureza do asfalto. […] é pra isto que a arte existe em sua força política, para deixar os corpos quebrarem. […] Há momentos em que os corpos precisam se quebrar, se decompor, ser despossuídos para que novos circuitos de afetos apareçam. […]

Saltar no vazio era a maneira, tão própria à consciência histórico-política singular de Yves Klein, de se colocar no limiar de um tempo bloqueado pela repetição compulsiva de uma sensibilidade atrofiada”.

Como nos filmes, minha vida passou por mim em time lapse depois dessa pequena e difícil leitura. Decidi que meu salto ao vazio começou quando no fim de 2016 eu me escolhi. A consciência disso estava apenas na palavra. Como Lila e Lenú, eu também acreditei que as letras têm poder, mas efetivamente, descobrimos todas nós, isso é uma ilusão. Cabe a cada um suportar o fingimento. Lentamente, mês após mês, no tempo de queda dos meus pesos, eu fui espatifando. Esse rompimento passou do chão e atravessou as águas. Tem pedaços meus em outro continente. Sabe-se lá quantos se perderam pelas muitas cidades daqueles tantos países. Ainda estou desmanchando. Vez ou outra sinto a dor do encontro dos meus restos em algo. Talvez seja por isso meus desmaios na caneta, o olhar apavorado ao tentar escrever qualquer trabalho e o gaguejar que às vezes acho ser defeito hereditário. Imaginem a imagem de um corpo esfarelado, de partes de dedos tentando em vão sustentar no colo uma portadora de tinta, a tentativa frustrante de pedir ajuda com as cordas vocais tão separadas que o pó chega a ser mais visível. Parece impossível. E é desesperador, quase como afogar num mar de mortos.

Quando no meu penúltimo dia de Évora o mini-templo de Diana – que eu queria que representasse minhas tantas passagens de portais entre os mundos que eu jamais imaginei ultrapassar – pareceu ver nas minhas mãos o lado contrário de um imã e se jogou da altura de minhas expectativas, dividindo-se em muitas partes, não foi minha má-sorte. Tampouco perseguição exclusiva do universo para me convencer da minha inutilidade e completa inadequação. Foi apenas um retrato carinhoso e apaixonado de quem deseja me mostrar algo encantador que não enxergo. Que só agora quero inventar depois de ter lido tantas coisas e das horas estarem próximas do eclipse lunar. E todo esse movimento doloroso grita bem perto de mim, pra se certificar de que estou escutando bem e pra me pegar no susto, que carrego uma enorme força do lado de dentro. Porque mesmo em partezinhas minúsculas e com todo o ‘apesar de’ eu fui capaz de doar tudo o que não tinha em cada encontro, com imensa ternura. Além disso, espetou o coração pra lembrar de me sentir sempre grata por receber em troca a beleza de cruzar com seres que enquanto eu me desafazia se dedicaram em tentar abarcar num abraço, correndo de um lado ao outro, esses meus restinhos que voavam.

Essa sempre arriscada brincadeira de tentar me entender, necessidade que eu mesma me crio, é tudo o que tenho pra suportar (mesmo mal) o absurdo da vida. É nisso que deposito minha fé. E como o deus que cada um carrega no bolso, chamo essas tentativas todas de poesia.

PS. pra quem por engano ou sem perceber ficou com os versos caídos de tudo o que fui, e que às vezes por mesquinharia reclamo ter deixado ou esquecido, não precisa devolver. Fica de presente.

 

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Samba, samba, samba lelê

É que escrever ainda me salva dos sonhos que eu não posso contar. Também das vontades que eu não conto pra não me terem como tola. Ainda que eu repita isso o tempo todo procurando desculpar essa insignificância. Tem gente que acredita que a preguiça de um lindo dia de sol que te prende na dor do não fazer é um sintoma. Eu queria, muito, acreditar nisso também. Não sei, no entanto, se posso chegar tão longe em me convencer de que todo esse corpo mole seja mais do que é. Quem manda ladrilhar a própria rua moveu tudo em si, dispostos a quaisquer sacrifícios. Sequer tenho estradas. Maria tá com a cabeça quebrada, será que ela merece mais palmadas? Se eu disser que às vezes espero que venha alguém e revele nesses versos todas que me sustentam. Não, eu não ouço vozes. Quem dera. Sou eu que me discuto e me deixo roxos. Faz tempo permito todo mundo, só pra não ficar sozinha. E sempre fico, mas com alguém cutucando meu silêncio. Digo bobagem, sussurro coisas que não sinto. Sorrio o mais sincero amarelo. Se alguém me descobrisse. É um desejo. E medo. Porque o que se fala com alguém que te sabe? Será isso um deus? Talvez. Por isso também desgosto, a ideia de alguém que exerce tanto poder sobre você. Mim. Nunca chore. Quando choro sei sempre que perdi. Dei um pedaço meu que era segredo. Meu e do silêncio que me reina. Queria ser entregue ao paradoxo dos sentires que nasce quando se entrega, assim feito Bethânia e todas as outras. Mas me arrependo. Porque me mentindo mistério feito Clarice é que me possibilita levantar mais vezes feito cavalo – que sou só no calendário chinês, porque a verdade é que não posso ser representada senão por essa imagem que me encara sempre tão perdida, fraca e com essas batidas nos olhos.

Mãe

Acho que nunca escrevi sobre essa data, porque tenho a impressão que as palavras não só me revelam toda como apontam os acentos em riste. E eu morro de vergonha de me dizer filha dela. Tive muito mais oportunidades. Não que tenha sido fácil, doeu foi muito. Eu grito ainda. As pessoas me chamam forte como coisa que eu tivesse escolha a não ser ir. Mas as pessoas não conhecem ela. Tem dias que eu acordo com receio de encará-la. Ela às vezes diz sorridente “essa é minha filha”. Sei que ela conta de mim pra todo mundo. E eu só peço “mãe, fala menos da sua vida”. Essa semana mesmo eu chorei. A vergonha é tanta. E vem junto um desespero. Ela tem uma história que dói pensar, não tenho força pra segurar a ponta da caneta. E ela é Maria com complemento estranho pra fazer dela bem única. Ela é baixa. Não tem quem dê. Sempre me pergunto como ela consegue levantar todo dia. Ela estressa, grita, fala besteira e eu imediatamente acho ruim. Eu sinto vergonha demais. Dá conta sozinha ninguém dá. Um pouco vó, um pouco a rua. E pro meu jeito, acho um pouco os livros. Só não sei quem antes dos livros, porque exemplo não tinha. Reclamava proteção, mas a verdade é que o mundo não facilita. Sei que culpei ela foi muito tempo. Daí um dia quando em meses de só duas horas de sono, porque vi quem me matou a primeira vez, li um texto que dizia que os bebês quando estão agressivos com as mães é porque descontam suas frustrações, que tiveram com outras pessoas e em outros ambientes onde não se sentiam seguros. Mãe é lar. E mulher também. Aí eu senti foi mais vergonha. Tenho dúvidas se tem dor que carrego só ou ela nem sabia que podia reclamar quando passou por ela. Já disse, pra explicar jeitos de ver algumas coisas, que somos lados da mesma moeda. Esses lados não se encontram né, mas fazem parte um do outro. Ela chora se vou, mas sabe que preciso. Ela nunca me pediu nada. Mas me mata de vergonha não poder dar. Não sou mulher suficiente pra escrever sobre minha mãe.  Mãe, eu morro de vergonha de me dizer sua filha. Porque você é muito. Eu não consigo chegar. Desculpa.

distraí

era pra ter costume. não são minutos de exercício encarando o breu no espelho yata. são quase 10000 dias. os dentes sangram porque não lembro se esqueci algum lado da boca. o sono sempre atrasado. as memórias sempre geniosas. é o que minha vó diz de mim pra explicar as feridas de viver fugindo do rebanho. manhãs nunca prometeram nada. recolocamos então as máscaras pra não ter que usar os ()inas. prendemos a bagunça num coque. moça, moça, acho que você deixou cair um desespero. agradeci. foi um instante de distração no nada. o trem parou. como eu sempre tinha um reserva em casa, no trabalho e na faculdade, joguei aquele no lixo. nas escadas o bebê deu um sorriso. nem foi pra mim e eu devolvi mesmo assim.

Acho que estou sabendo

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Esse cenário repetido é onde cheira meu vazio, onde confundo o que sou e o que é lugar. Aqui o medo me agarrou pela primeira vez. Daí nasceram as faltas. Felipe, que tem o mesmo sotaque do meu nascimento mas não reconheceria minha pinta, nunca foi sonhado. Feito eu. Apagaram a luz achando que a gente ia gritar, só que esqueceram nossas almas abertas.
Eu sei, meu sorriso não tem cor. Não sou capa. Nem orelha. Sou a sombra do que sobrou. E também não sei sonhar, tou aprendendo. Comecei fechando os olhos.

Nem me guarde no vidro

não espere. ainda que o coração esteja batendo nas costas, meus olhos andam só pra frente. é um jeito covarde, mas só me dou de bocadinho. não espere. só aprendi a ser inteira, faltei em todas as aulas de concessões. por isso mesmo junto eu vivo só. não espere. também quis ser outra, sinto inclusive nunca ser mesma, mas quando cortaram meu umbigo eu tive pena. não espere. não se for pra entender, é pouco, e só sei me explicar em silêncio. espere se puder viver dias imensos de gelo mesmo abraçando minhas manchas de sol. e não esqueça que apesar de achar lindas, não sigo conselhos de raposas.

Ninguém é sol

Acostumado com o coração sertanejo, minha garoa no inicio te incomodava. Dorzinha feito a de começar a pensar. O tempo de alguns xâmegos te floresceu mandacaru. Os espinhos escondidos na minha cor vermelha foram roçando nos seus. Assim cheios de marcas considerei os desenhos de nós com a mesma certeza do amanhecer no dia seguinte e seguinte e seguinte. E mesmo sua partida não me convenceu de que conseguiria se manter sem minha água. Eu nada conhecia de outra vegetação. Murchei um tempo amargando espera. Fui me deixando aos poucos onde já não lembro. Até me dar conta que não era só eu que chovia. Mas eu chovia. Eu ainda. Não, não fica tudo. Mas os pedaços restantes ficam bem.