Dos momentos sérios do dizer nada

blog palacios

não tenho curvatura pra pose, nem sou pássaro que pouse. forço rima e tudo, menos um abraço. sou tão dada quanto desgarro fácil. deixei de querer me ver em dois, já que é pra ter números que seja no mínimo trindade. não durmo logo e não importa o colo. eu quero as cores do cabelo Clementina, a atenção dos olhos fechados de German, o balé de Frances na rua, a astúcia de João Grilo na seca. eu quero viver querendo toda gente. mangar de mim mesma quando tombo goles de qualquer coisinha, porque sou fraca. não precisa me dizer, eu sei. eu tou mesmo é fugindo. foi um sotaque cearense quem me ensinou que voltar é longe. eu sou também isso aqui, uma legenda grande que ninguém nem lê, mas poesia é igual farofa. não sei viver sem. na verdade eu sei, mas não quero. e eu já disse que quero é querer vivendo e querendo viver.

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Cria da dor

Meus respiros todos foram pra voar ao lado dos grandes com asas alugadas. Gastei assim pra não ter que olhar esses eus que sobram. Hoje recebi o último aviso de atraso. Fui jogada mais uma vez pra essa vala de mim mesma. Cheira mal. Mesmo assim não quero perdão. As mãos já não são sagradas e o abraço virou só um buraco. Minha covardia continua ouvindo o que dizem os espinhos alheios. Só não sangro mais porque ainda broto me picaram inteira. Resisto apenas na minha falta de vergonha. E eu podia ter escolhido o show da Bethânia. Mas não posso abandonar quem me deu de comer.

Onanista

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o áudio é outra maneira de me ler, escuta também:

thumbnail_Player Vooozer

não sou essa folha seca que cai da árvore, sou bem menos. me falta graça, leveza, saber o momento certo da surpresa. mas amiga, se soubesse como pisam melhor meus pés sobre meu corpo. cada dia uma nova versão da mesma história de que a única coisa que me pertence sou eu. talvez isso não seja lá maneira de ser feliz. só que eu nunca quis ser feliz. e tenho gostado de ser essa boneca de pano que em cada rasgo ganha remendos de calor. um sorriso, um aperto, um beijo, um chamego. a falta de ar, de sentimento, de desejo. o vazio, o silêncio. fios de cabelo suspensos. as direções erradas viraram sinais. ando em círculos e já não me importo mais. porque embora os lugares sejam os mesmos, os sotaques nunca são. não tenho mais medo, danço xote sem vergonha em terreiro alheio. ando pixando fogo. e eu sei, você é nova. não faz mal ouvir sua mãe. mas quando se der conta de que não existe estar pronta, pega o pedaço de cera que ainda te sobra e vem queimar até não ter mais volta.

Évora

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Daquilo que me dei e o universo afagou como quem diz: sim, vai estar na vida.

Não tenho vergonha de como me construo, dos lugares que me criam, mas vivo controlando o tanto que dou das minhas dores e alegrias. Carrego sacos e mais sacos de memórias ruins, mesmo pesando muito doído, e deixo as boas esfarelando pelos caminhos. Já adoeci muito, tanto que sempre tive dificuldade pra entender o é, mesmo adorando dar presente.

Djamila Ribeiro, se não me engano, disse uma vez algo como não confundir problemas sociais/raciais (que acontecem a grupos específicos) com problemas da ordem humana (que podem acontecer com qualquer pessoa, tipo câncer e afins). Tou falando disso porque sei que ser de onde sou e estar onde estou acontece com uma frequência muito rara. Isso mexe muito com a gente, com nossa autoestima, nossos sentidos. Nós vivemos atravessando portais. Era pra ser uma imagem bonita, mas a energia que gastamos pra tentar nos manter o mínimo saudável em cada atravessar não é recarregável.

No fim da semana passada eu estava bem desesperada, porque na espera do visto para viajar recebi a notícia de que ele estava liberado, mas que o dia de retirar seria muito depois do meu voo, portanto teria que remarcar minha passagem, o que significava taxa. E, bem, ser pobre é ativar todas as sirenes quando se escuta essa palavra. Ao pedir que calculassem quanto ficaria para remarcar pra uma data póstuma ao recebimento do visto, recebi a informação de que sairia quase o dobro do valor que já havia gasto nas passagens. Eu chorei. Mesmo. Gastar aquilo significava não ter mais condições de manter as mínimas despesas. Não sei se devia ter maturidade pra isso, mas eu queria pegar um único sonho nas mãos. E lá estava ele indo embora. Os pensamentos me deram febre dois dias seguidos e, embora eu não seja médica pra explicar os comos dos diagnósticos, essa não é só uma imagem. Sei que tudo parecia dizer pra sempre andar pelo chão, porque voar só arrebenta. Mas mãe. Minha mãe. Aquela que engoliu tantas e tantas vezes choros e doenças pra dar de comer os filhos veio com olhos em rocha, dizendo que a madrugada era esperança. Se preciso fosse exibir os corações pingando, assim faríamos. Ela ajoelhou, eu terei que rezar.

Nossa Senhora Aparecida terá uma vela minha, porque naquela véspera de viagem eu saí sabendo que eu estaria nela. Saí daquelas paredes burocráticas sem controlar feição, tava tão sem entender que coloquei a mão na barriga e disse estar passando mal, que o risole não devia ter feito bem. A resposta que me deram veio em eco: “nada a ver, isso é porque você não está acostumada a ser feliz”. Não estou mesmo. Por isso ainda não sei bem como estou me sentindo. Não sei se vou ter nome pra dar.

Fiquei passando todos esses dias ponderando vir aqui compartilhar qualquer coisa do que está me acontecendo, porque me sinto culpada por estar tendo dias bons. É que eu queria isso pra tanta gente, e sei tão pouco o que fazer. Brigo comigo, como posso me dar ao luxo de se dizer feliz?

Não queria ter passado por tudo que passei pra ser até aqui. Queria mesmo é dizer que meritocracia é meuzovo. A gente tá chegando só pelas beiradas, esmagando o corpo todo, peneirando várias vezes a alma e ainda sentindo vergonha de ficar. A gente tá se matando. E a gente tá se matando não é figura de linguagem.

Eu quero Viver, assim com letra maiúscula. Um bocadinho que seja. E eu sei que não sou só eu, não vou esquecer disso enquanto respirar. Vou me dedicar pra que o mundo de onde venho se alargue e seja de escolhas reais. As pessoas querem dizer bonito o que a gente pode ou não querer, mas nós não temos como decidir isso se só alguns têm opções.

Nesse meio tempo, vou comemorar. Comemorar por estar voando, por sorrir tanto quanto é possível nas tentativas de comunicação, por andar feito criança nas ruas (comentando alto sobre qualquer pequena novidade), vou estar aqui, encontrando as uvas no caminho e comendo e compartilhando. Vou comemorar por estar em estado de beleza e gratidão.

Roda Viva

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Tou escrevendo de ansiosa que sou, porque a verdade é que não deu tempo e não tenho a menor ideia de como começar a costurar o maravilhoso vestido rodado que foi desfazer mais um ciclo. Talvez eu goste mesmo de escrever, não como terapia ou necessidade. É dessas coisas feito fé. Confesso que já usei a escrita pra fugir de olhares difíceis. Mas também já peguei o sabonete em muito texto que deixei cair.

Acho que sei chorar bastante bem, de um jeito que não incomoda as pessoas. Sorrir não é como andar de bicicleta, porque as quedas podem paralisar por muito tempo a coragem. Acontece que nesses últimos dias eu não tirei as casquinhas, daí a coceirinha que dava era até gostosa. Mas foi tanto passeio de dentes que dei, tanto, tanto, que eu até consegui dormir mais de três horas ininterruptas.

Quando eu estava lá rodeada das pessoas que amo e que me querem bem, fiquei pensando como as decisões de partida devem ser feitas com a mesma delicadeza que temos ao pegar um nenê no colo. Tem que respirar bem o cheirinho, admirar o choro do desconhecido, aquecer com a banguelinha da confiança.

Mundo vasto mundo, eu me chamo Maria. Minhas amigas me rimam com pia, e eu tou bem longe de qualquer solução. Mas se os dias se passam com mais fracassos é pra eu continuar frequentando corações que só eles podem me apresentar.

Tenho 27 anos, não quero casar, ter filhos, casa própria e carro do ano. Alguns podem pensar que é pouca ambição. Porque né, tem coisa mais ingênua que querer mudar o mundo?! Mas eu tou aqui achando o máximo ter reaprendido que a dor é poliamorosa e efeito dominó. E que prefiro as marcas de calor nos pés do que os buracos no colchão.

Que o universo me mantenha forte, porque firme é o mesmo que acreditar em papai noel.

 

Loba

mac blog

Sonhei mais uma vez com minha ex-chefe. Teve tempo que ela dominou minhas madrugadas. Atenta pra perceber quando esses sonhos vêm, sabia só que aquela visita de ano novo eles nunca deixam de fazer. Fui me intrigando com a coincidência de eles surgirem sempre em momentos difíceis. Quando sou apreensão ou cansaço de Álvaro de Campos. Mas dessa vez eu consegui dançar as batidas da veia.

No sonho, eu tinha ido visitar uma amiga (lá mesmo, no ex-trabalho dessa tal ex-chefe). Pra não atrapalhar essa minha amiga, acabei ajudando na organização do lugar. E eis que aparece a ex, sempre com aquela cara de deboche, mostrando ao mundo sua superioridade, insinuando que minhas mãos são e sempre serão de subordinada – hoje eu penso que esse era o jeito que ela tinha pra esconder a mediocridade (a minha, por exemplo, já deixo logo escancarada). Respirei fundo e me cantei paciência. De repente a mãe dela surge trovejando em mim os piores adjetivos. Sabe aqueles momentos em que a nossa voz é roubada no sonho? Foram assim em todos. Menos nesse. Não sei o que me empurrou, as palavras vieram cambaleantes. Eu gaguejava que ela não podia me tratar daquela maneira, pedia respeito e várias outras coisas enquanto ela soltava o famoso “você sabe quem sou eu?”. Mas meu tom torto continuou lá, dizendo que a vida não olha bolso ou sobrenome.

Vivi muito tempo vendo miragens de marias e andando seca. Mas no último ano, pela primeira vez, eu pude trabalhar com paixão, trocar experiências, compartilhar aprendizados.

Ontem, pela manhã, atendi um grupo de professores e me senti grande. Porque inteira. Compartilhei um jeito de brincar depois de não ter mais dentes de leite. Mas à tarde, ao atender um grupo do ensino médio, me faltei. Exigi pra ser. Foi muito esforço. No fim da visita, sentada com a galera, eu pedi desculpas. Expliquei que o corpo e a mente estavam numa lentidão que me paralisava as ideias. Mesmo com a vontade de pé, a fala não acompanhava o raciocínio, que por sua vez não acompanhava a mínima coerência. Reconheci diante de vários adolescentes que eu não sou o tempo todo um estado só. Eu estava ali um pouco sangrando.

Na saída encontrei Levi, um ser brilhante que o universo fez aquele enorme favor de apresentar. O Levi disse, entre muitas coisas que estão guardadas nos cantos aqui da alma, que devemos parar de nos esconder atrás das fantasias negativas que fazemos de nós mesmos. É aquele “seja você” com estilo, um “reconheça sua humanidade”.

Eu fui pra casa, cansada, com pingo gelado na cabeça, o coração meio bamba. No apagado dos olhos tive o sonho. Hoje. Ai. Cheguei às pressas, era muita gente pra pouca eu. Mas dividi meu pãozinho com todo mundo. Um grupo de pessoas adultas, com a enorme responsabilidade de contribuir com a educação de tanta gente, me agradeceu por eu simplesmente ser eu. Imaginem vocês que loucura divertida. Conheci a história da Helena e do Adolfo, que já fazem parte da minha literatura real favorita. Ouvi: “existe muita luz em você”. Não sei bem o que isso significa, mas costumo ter medo do escuro.

Meus botões floresceram temporariamente e, como disse Tania-Ahita, “minha única pretensão é mudar o mundo”. A maneira como eu vou fazer isso vai sempre juntar minha entrega total, mesmo quando meus olhos água e o corpo poeira, com a improvisação.

Só pra acabar de não fazer sentido algum: querida ex, esse texto não é para ou sobre você, mas se algum dia tiver acesso a ele saiba que eu espero que você esteja bem. Mas deixa marcador nessa página, pra não esquecer de se manter o mais distante possível dessa tua versão. Aceite, durante muitos anos, você foi uma péssima pessoa (estou otimista de que tenha melhorado um pouco).