Mãe

Acho que nunca escrevi sobre essa data, porque tenho a impressão que as palavras não só me revelam toda como apontam os acentos em riste. E eu morro de vergonha de me dizer filha dela. Tive muito mais oportunidades. Não que tenha sido fácil, doeu foi muito. Eu grito ainda. As pessoas me chamam forte como coisa que eu tivesse escolha a não ser ir. Mas as pessoas não conhecem ela. Tem dias que eu acordo com receio de encará-la. Ela às vezes diz sorridente “essa é minha filha”. Sei que ela conta de mim pra todo mundo. E eu só peço “mãe, fala menos da sua vida”. Essa semana mesmo eu chorei. A vergonha é tanta. E vem junto um desespero. Ela tem uma história que dói pensar, não tenho força pra segurar a ponta da caneta. E ela é Maria com complemento estranho pra fazer dela bem única. Ela é baixa. Não tem quem dê. Sempre me pergunto como ela consegue levantar todo dia. Ela estressa, grita, fala besteira e eu imediatamente acho ruim. Eu sinto vergonha demais. Dá conta sozinha ninguém dá. Um pouco vó, um pouco a rua. E pro meu jeito, acho um pouco os livros. Só não sei quem antes dos livros, porque exemplo não tinha. Reclamava proteção, mas a verdade é que o mundo não facilita. Sei que culpei ela foi muito tempo. Daí um dia quando em meses de só duas horas de sono, porque vi quem me matou a primeira vez, li um texto que dizia que os bebês quando estão agressivos com as mães é porque descontam suas frustrações, que tiveram com outras pessoas e em outros ambientes onde não se sentiam seguros. Mãe é lar. E mulher também. Aí eu senti foi mais vergonha. Tenho dúvidas se tem dor que carrego só ou ela nem sabia que podia reclamar quando passou por ela. Já disse, pra explicar jeitos de ver algumas coisas, que somos lados da mesma moeda. Esses lados não se encontram né, mas fazem parte um do outro. Ela chora se vou, mas sabe que preciso. Ela nunca me pediu nada. Mas me mata de vergonha não poder dar. Não sou mulher suficiente pra escrever sobre minha mãe.  Mãe, eu morro de vergonha de me dizer sua filha. Porque você é muito. Eu não consigo chegar. Desculpa.

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distraí

era pra ter costume. não são minutos de exercício encarando o breu no espelho yata. são quase 10000 dias. os dentes sangram porque não lembro se esqueci algum lado da boca. o sono sempre atrasado. as memórias sempre geniosas. é o que minha vó diz de mim pra explicar as feridas de viver fugindo do rebanho. manhãs nunca prometeram nada. recolocamos então as máscaras pra não ter que usar os ()inas. prendemos a bagunça num coque. moça, moça, acho que você deixou cair um desespero. agradeci. foi um instante de distração no nada. o trem parou. como eu sempre tinha um reserva em casa, no trabalho e na faculdade, joguei aquele no lixo. nas escadas o bebê deu um sorriso. nem foi pra mim e eu devolvi mesmo assim.

Acho que estou sabendo

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Esse cenário repetido é onde cheira meu vazio, onde confundo o que sou e o que é lugar. Aqui o medo me agarrou pela primeira vez. Daí nasceram as faltas. Felipe, que tem o mesmo sotaque do meu nascimento mas não reconheceria minha pinta, nunca foi sonhado. Feito eu. Apagaram a luz achando que a gente ia gritar, só que esqueceram nossas almas abertas.
Eu sei, meu sorriso não tem cor. Não sou capa. Nem orelha. Sou a sombra do que sobrou. E também não sei sonhar, tou aprendendo. Comecei fechando os olhos.

Nem me guarde no vidro

não espere. ainda que o coração esteja batendo nas costas, meus olhos andam só pra frente. é um jeito covarde, mas só me dou de bocadinho. não espere. só aprendi a ser inteira, faltei em todas as aulas de concessões. por isso mesmo junto eu vivo só. não espere. também quis ser outra, sinto inclusive nunca ser mesma, mas quando cortaram meu umbigo eu tive pena. não espere. não se for pra entender, é pouco, e só sei me explicar em silêncio. espere se puder viver dias imensos de gelo mesmo abraçando minhas manchas de sol. e não esqueça que apesar de achar lindas, não sigo conselhos de raposas.

Ninguém é sol

Acostumado com o coração sertanejo, minha garoa no inicio te incomodava. Dorzinha feito a de começar a pensar. O tempo de alguns xâmegos te floresceu mandacaru. Os espinhos escondidos na minha cor vermelha foram roçando nos seus. Assim cheios de marcas considerei os desenhos de nós com a mesma certeza do amanhecer no dia seguinte e seguinte e seguinte. E mesmo sua partida não me convenceu de que conseguiria se manter sem minha água. Eu nada conhecia de outra vegetação. Murchei um tempo amargando espera. Fui me deixando aos poucos onde já não lembro. Até me dar conta que não era só eu que chovia. Mas eu chovia. Eu ainda. Não, não fica tudo. Mas os pedaços restantes ficam bem.

Doses

Meu amor atropelou pessoas em pleno som a pino. Nunca fui ajuda, até meu corpo é ladeira. Todo mundo diz que a vida acontece. A minha nada. Meu chá bebe quem vê que sou nascida das penas. Só eu sei o peso dos lamentos que caem no silêncio dos meus olhos. Facilmente me dão tantos nomes. Eu com dificuldade levei mais de uma década pra me olhar Maria,